Meire
A primeira vez que nos vimos foi quando entrei correndo no antigo salão
que ela trabalhava, eu estava descabelada e cheia de sacolas:
(Segundo exercício do livro “Como se encontrar
na escrita”, de autoria da Ana Holanda: Conversar com alguém que encontro com regularidade e construir o perfil dela a partir deste encontro).
- Você pode fazer um milagre?
Ela sorriu quando mostrei minhas unhas desiguais e com esmalte descascado
e logo se prontificou a me atender. Perguntou de onde eu era e eu contei onde
trabalhava e morava. Sempre fui de me contar.
Meire é uma mulher muito bonita e deve ter por volta de cinquenta anos de idade. Tem o
cabelo curto e vermelho, uma tatuagem no antebraço, usa óculos retangulares e é vaidosa. Eu me contava e
ela se contava, mas ela costumava ouvir mais do que falar.
Eu voltei outras vezes ao salão pela localização e pelo bom atendimento,
mas fiquei feliz quando Meire e suas colegas saíram de lá para outro espaço. Arrumaram o novo salão do jeito delas: simples, de cores neutras e bem aconchegante. Foi lá que ela se
sentiu mais aberta para conversar.
Ela me disse que é viúva e teve três filhos, mas que dois filhos morreram. O caçula, de vinte anos, foi vítima de execução quando trabalhava em um posto com o pai. A filha mais velha foi vencida pela leucemia, e tinha a minha idade (32 anos). Trazia a foto da família na carteira. Eu fiquei impactada com sua força. Mesmo com perdas tão significativas ela não deixava de acreditar na vida e no
amor. Confesso que não sei como lidar com a morte, não tendo ela se
aproximado de mim como fez com Meire. Após conhecer sua história, foi impossível não projetar alguns de seus fins de expedientes e de semanas, em uma casa vazia de
pessoas e cheia de saudade.
Tenho aprendido muito com as pessoas que passam por mim, mesmo que às
vezes a conversa não seja longa (nem eu detalhe minhas experiências). Aprendi a interpretar silêncios e olhares, calar e sentir. As pessoas mais simples são sempre as mais sábias e as que mais
me ensinam.
Meire é bem Janaína, sabe? Ainda tem sonhos e acredita que seremos (ou já
somos) felizes. Se Deus quiser!
Para ouvir: Janaína – Biquíni Cavadão ♪
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