Sinto muito

(Diário de quarentena)

O barulho da obra me incomodava. Não pelas batidas inconvenientes da semana inteira, mas porque o momento requer cuidados, não exatamente na piscina do vizinho. Cada martelada me lembrava que aquelas pessoas deveriam estar em suas casas, se o mundo fosse justo.
A fila no Terminal Siqueira em Fortaleza era imensa. A da Caixa do centro de Iguatu, também. A maioria das pessoas não pode fazer home office, boa parte sequer tem trabalho. As marteladas e o tique-taque do relógio gritam no mundo silente. O vírus varreu as ruas para que as pessoas repensem suas vidas (dentro de casa). As que têm o privilégio disso, claro. Tenho feito isso há um tempo e reconheço o meu.
Vi uma foto de um cantinho de estudos que consistia em uma mesa e uma cadeira simples, com um notebook em cima da mesa, sobre um Vade Mecum que servia de apoio. Todos esses objetos desgastados e rodeados de paredes não rebocadas formam o espaço de aprovação de um homem que hoje é Policial Rodoviário Federal.
A Grifos me deu redenção: eu não era a única que mesmo com tempo livre não me concentrava direito nos estudos, por tudo o que está acontecendo. Ontem a minha namorada me disse que eu estava com uma cara assustada, e eu estou. Mesmo com a rotina já delimitada, lá se foi nosso jantar de toda sexta, a missa dominical e o sorvetinho depois. As ruas parecem o cenário de The Handmaid’s Tale quando as mulheres começam a fugir sem saber do quê.
Para quem sente, a mensagem não é lida literalmente, mas nas entrelinhas. A forma que tenho de honrar a minha história e a de quem amo é estudando pelo futuro que ainda acredito e enxergo. Vai passar, vou passar, vamos passar.
Ontem eu pesquisei sobre culpa. Sabe quando você se cobra tanto que está sempre devendo? É isso. Um dos assuntos preferidos da obra freudiana. Não acreditando em coincidência, ouvi que preciso calar e agir. Ser cirúrgica (como já fui, mas algo se perdeu).
Esse é o meu primeiro (confuso) relato.
O primeiro conselho é: Sinta. Sinta tudo e sinta intensamente. Perceba o mundo aí dentro e lá fora, depois amadureça as ideias e faça algo. Por você, primeiramente (salvará vidas, e talvez não seja a primeira vez que isso acontece).

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