Medo
Para alguns, “o dia em que a Terra parou” (citando – quase cantando – Raul Seixas) foi 20 de março, mas para mim foi um pouco antes, dia 13 de março. Ainda lembro como a repórter disse que não se tratava de uma epidemia, mas de uma pandemia, pois era grande o número de pessoas infectadas, em muitos países. A ficha caía enquanto eu dirigia de volta para casa, prevendo o caos no Brasil por causa da gritante desigualdade socioeconômica e da crise constitucional já existentes.
Durante três meses a rotina foi ficar em casa e receber as coisas por delivery com o máximo de cuidados, usando máscara e álcool em gel, lavando as mãos com água e sabão com frequência e vigiando quaisquer sintomas suspeitos. Não foram poucas as vezes que a ansiedade tomou de conta e me acordou durante a madrugada. Fui deixando de fazer exercícios físicos e de me alimentar bem. Só após assumir que o meu medo da doença não me ajudava foi que tive coragem de visitar meus pais outra vez.
Em um curto espaço de tempo eu tive que remodelar meus cuidados com a pessoa que amo (cuidar à distância) e foi a lição mais dura e difícil, pois além de não gostar de vê-la em apuros, é no colo que nos livramos dos males. Aprendemos muito. Pude ver que o sangue não induz empatia, só o amor. Cazuza dizia que “tudo que faz bem pra gente, a gente tem medo”, mas senti que tenho medo do que pode me deixar mal, não necessariamente vai.
Sei o quanto sou privilegiada, aparentemente não fui
contaminada pelo covid-19, mas o medo me fez perder o ar, chorar, me sabotou. A
dor alheia foi sentida pelos empáticos, não pelos negacionistas; mas não há unanimidade.
Não houve alguém tão ruim que não tenha feito algo bom, nem alguém tão bom que
não tenha feito algo ruim durante esse tempo.
Ainda não consigo projetar um futuro breve com a liberdade do último fevereiro, por mais que os piores dias já tenham passado (eu acho). Às vezes pesadelos vêm e tomam o sono de assalto, mas já volto a dormir mais rápido e melhor do que antes. Tapo meus olhos, pressiono meu coração e me concentro na certeza de Chico que isso também passa.
Para ler: Cartas da pandemia
Para ouvir: Coragem – CPM 22 ♪
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