Março acabou

Sempre gostei muito do mês de março. Primeiramente, é o mês do padroeiro da cidade pequena e sem muitos atrativos onde vivi a minha infância. Nesse mês muito mudava: acordávamos cinco horas da manhã com o som do sino e do megafone da igreja. O clima frio, as bandeiras, as procissões, as barraquinhas dos feirantes e o parque-de-diversões iluminavam nossos desejos de grandes chuvas.

Em segundo lugar, é o mês o meu aniversário. A ariana da casa adorava quando o dia começava com sorrisos, abraços e felicitações. Melhor ainda se acompanhados de bolo e festa, não importava se estavam menos de dez ou dezenas de amigos reunidos, se havia sido planejado ou surpresa.

Desde que fui morar na capital do Estado para estudar, diminuí minha presença na terra que me adotou, questionei comportamentos, dogmas, minha fé oscilou, desfiz amizades, fiz novas amizades, tive aniversários memoráveis e batidos. Pouco antes de voltar para a casa dos meus pais, há dez anos, não me reconhecia no espelho, mas havia uma identidade guardada lá, na primeira gaveta da cômoda. Há cinco anos moro sozinha e não sei quantas de mim eu já contei.

Os dois últimos marços foram muito difíceis, passei muito tempo sozinha por causa da pandemia e aprendi com meus silêncios. A respeitar o tempo, a cuidar melhor do apartamento. Todavia, a indefinição fez morada e não sei dizer quem sou, o que faço, o que sinto, o que quero, quais são os meus planos. Sei dizer o que sou (ou estou sendo) com outras pessoas. Talvez eu tenha passado tanto tempo me evitando, que só agora, quando o mundo obriga, estou assimilando o passado, ouvindo o presente e o futuro (?).

Há dois anos o sino não toca, as pessoas não saem em procissão, não há barraca nem parque, mas também não há saudade da casa parental. Dia 23 teve choro, teve reflexão, mas também teve bolo e chocolate. A dor atravessou milhões de pessoas, cada uma de uma forma. A minha trouxe um misto de nostalgia, raiva, culpa, amor e medo. Hoje eu desabei. Sem motivo algum ou por tudo isso.

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