Sapatos calçados
Tem um podcast que eu amo ouvir. É o Para dar nome às coisas, administrado pela Natália Sousa (@natyops). Certa vez, ela disse que precisa dar nome às coisas que sente para então elaborar algo sobre isso. Nesse período de pandemia e de muitos dias em casa, eu tive o privilégio de ouvir muitos episódios e a sensibilidade de olhar para dentro, nomear e renomear meus sentimentos.
Hoje é dia de falar sobre os sapatos calçados. É o nome que eu dei a um esgotamento que tive por estar constantemente me colocando no lugar dos outros, tomando seus problemas como meus, “calçando seus sapatos” (mesmo quando não era solicitado ou necessário, por uma “empatia meio que automática”). Depois de ler alguns artigos sobre saúde mental, ponderei que não estou em um bom momento para “socorrer” as pessoas porque preciso dos meus próprios cuidados e não posso me negligenciar. Usando uma metáfora, eu me vejo como uma lagarta em um casulo, amadurecendo, quieta em seu processo, sem a autoridade de uma borboleta para bater asas por aí.
Minha vida melhorou expressivamente desde que passei a não surtar por coisas que não são da minha alçada e/ou que não dei causa. A maioria das incompreensões que me torturavam não eram minhas, mas de pessoas adultas que deveriam enxergar e gerir suas próprias limitações, se assim quisessem. Em regra, a cegueira. E seguiam serelepes enquanto eu me sentia sugada e consumida.
Os algoritmos fizeram saltar, um dia, uma entrevista com uma psicóloga que trouxe os tais dos sapatos calçados, afirmando que seria impossível calçar os sapatos dos outros, pois já estariam ocupados. E mais: para não terminar enfiando o pé à força, melhor seria agir segundo sua própria melhor versão. No final do texto, acrescentou que não há como apresentar um lenço já empapado para enxugar lágrimas. E é isso. Aquele texto me salvou, como muitos episódios do podcast da Nat também me tiraram para sentar naquela mesa onde senti que não estava sozinha.
Agora eu vejo as situações com clareza (e não de sobressalto) e repito após a devida e curta análise: - Veja só, não é problema meu! (...) e redireciono a minha energia. Essa experiência não me deixou menos sensível às (verdadeiras) dores alheias, pelo contrário, me ajudou a ver até onde posso ir e o quanto posso dar.
Um dos meus episódios preferidos do Para dar nome às coisas fala sobre fé. E assim como não foi por acaso, um dia, que a Nat topou com o livro certo na loja errada (o livro não pertencia à loja onde ela o encontrou, mas tinha a mensagem que ela precisava ler no momento), o algoritmo, ou Deus, ou o universo, abriu aquela notícia com o que eu tanto precisava aprender.
Eu sou um casulo grato.
Para ler: Fadiga por compaixão: "Os problemas dos outros me oprimem"
Para ouvir: Paz em meio ao caos
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