Ontem

Uma amiga escreveu um relato simples, engraçado e comovente ao mesmo tempo, que novamente me fez questionar por quais motivos sigo a minha religião, se escolhi ou que me foi imposto desde o nascimento.

Minha família é católica apostólica romana raiz, fui batizada e na infância acompanhava as missas, e cheguei até a Eucaristia. Não sou crismada e essa foi uma reclamação que permeou toda a minha adolescência. Como eu disse no texto anterior, a mudança de cidade foi uma quebra de muitos paradigmas. Perceber que a minha personalidade não podia ser encaixotada significou muito sofrimento desnecessário.

Desde a adolescência, ou até antes (mas a minha memória falha), tive experiências que podem ter sido mediúnicas, através dos meus sonhos (não sei se de fato eram, pois não conheço a doutrina espírita). Já tive sonhos muito reais com pessoas falecidas, que me passavam mensagens que eu não teria acesso de outra maneira e com poucas pessoas eu me abri sobre isso. Tive medo que achassem que eu estava mentindo para aparecer ou brincando com os sentimentos dos outros.

Certa vez, já adulta, conversei sobre isso com uma psicóloga, que também é minha amiga, e ela disse que eu posso ter ficado impressionada com a morte dessas pessoas e tal fato se refletia no meu inconsciente (mas eu não me considerava impactada, tampouco forçava lembranças dessas pessoas quando os episódios aconteciam). Também li em algum lugar que a mente da gente é capaz de criar realidades fantásticas e mundos paralelos, mas se eu pudesse manipular meus pensamentos certamente não seria nesse sentido. A morte é um tema que eu evito a todo custo.

Um dia, quando eu ainda cursava Direito, fui ao Shopping próximo após uma aula e me deparei com uma exposição de manuscritos do médium Chico Xavier, que acompanhava também uma série de objetos, fotos e relatos. Na minha opinião, ele é o maior brasileiro de todos os tempos. Lançou muitos livros, mas destinou todas as verbas à caridade e era simples. Li livros, vi filmes e a história dele me inspira, me toca e me dá paz. Cheguei a ver outros livros e filmes sobre o espiritismo, mas doei os livros e parei de ver filmes e documentários para não germinar algo que sei que é semente em mim.

Minha mãe é católica fervorosa e no começo do meu namoro (namoro uma mulher) eu ouvi os piores comentários (que era pecado, que desagradava a Deus, que eu era um desgosto e por aí vai). Eu sabia que parte dessa resposta derivava do fanatismo religioso. Tios mais velhos pouco ou nada praticantes não reagiram assim, logo concluí que não era sobre idade ou criação. Cresci respeitando todos.

Eu chorava diante do altar que tinha no meu quarto, um choro abafado e compulsivo que foi consolado por minha namorada dizendo que Deus nos ama como somos. Que eu não me afastasse dele, não deixasse de ir à igreja e não me julgasse menos cristã do que os outros que comungam. Fomos muitas vezes juntas, de mãos dadas, como nunca havia ocorrido em relacionamentos anteriores (que tinham todo aval do mundo para tanto).

Depois de quatro anos de relacionamento, ouço que somos “engolidas” e vejo atos que tão destrutivos dilaceram a paz (não só a minha paz). Tenho certeza que se um dia eu me reportasse como espírita o preconceito religioso seria maior (e teria mais vértices) do que a homofobia. Esse receito de total rejeição e ódio consegue ser maior do que a vontade de me abrir para o novo (a tal da zona de conforto desconfortável). Tenho medo das obsessões humanas ao mesmo tempo em que o verdadeiro tormento é não desenvolver meus possíveis dons (e não só os de ordem espiritual). Ademais, seria mesmo necessário eu anunciar a mudança? Não seria possível viver e gerenciar tudo isso até me sentir segura?

Quase sempre quando estou na igreja eu me sinto deslocada e choro, como se estar ali fosse não só uma violação às regras, mas como se eu fosse a própria fraude. Perdi as contas (e até o sono) me perguntando se a busca por outra religião ou filosofia não era só mais um desejo de ser acolhida. Romper padrões é me colocar à margem de tudo. Ouvi que não deveria moldar Deus à minha vontade, mas me moldar à vontade de Deus. Mas quais são e quem escreveu as regras? Penso que as regras Dele são diferentes, em número menor e mais abstratas das regras de uma religião. Deus é liberdade. Eu já me desfiz inúmeras vezes para viver conforme queriam e não estou mais disposta a barganhar meu sentir. Evitando conflito lá fora inicia uma guerra aqui dentro.

No texto anterior falei sobre um episódio do podcast @paradarnomeascoisas onde a fé é conceituada. Ele apareceu “do nada”, pois eu estava ouvindo um episódio recente e saltou. Gostei do que ouvi e continuei, estava alinhado ao que eu idealizava como fé: fé é acreditar e isso transcende qualquer religião. É amor nas pequenas coisas. A @natyops questiona por que não podemos interrogar se temos essa capacidade. Não faz sentido. Fé e amor são os conceitos-irmãos mais distorcidos desde sempre.

O ponto de convergência das duas religiões citadas e do meu coração é a caridade. Alegria em sua plenitude. Histórias permeadas de caridade são as minhas preferidas. Meu maior anseio é viver tranquila, sem o peso de me sentir errada o tempo todo por ser quem sou e fazer o que faço. Viver em uma eterna punição é o verdadeiro inferno. Todos somos humanos e falhos.

 

Fiquei muito ansiosa escrevendo esse texto e é uma ideia que em outro tempo eu jamais publicaria (mesmo sabendo que quase ninguém irá ler), mas estou encarando as minhas vulnerabilidades e essa é uma. Sou eu em carne viva.

O texto da Gabriela foi lido em um domingo de páscoa. Nesse mesmo domingo, li o meu diário bíblico (católico, da Editora Ave Maria) que me emocionou muito. Dizia que desejo de feliz páscoa não era de almoço diferenciado ou de ovos de chocolate. Era de compreensão que violência só atrai mais violência e que a felicidade consistia em deixar vir do nosso interior o que há de melhor em nós.

Comentários

  1. Sua escrita é dolorida e permeada de traumas. Gostei muito da parte que você fala de não poder questionar. Na doutrina espírita trabalhamos questionando sem parar, pq a verdade está sempre se modificando conforme a humanidade vai se descobrindo. Seu texto e o meu estão mesclado de vivências parecidas em relação ao medo e não foi por acaso esse encontro. Te aguardo no zap para discutirmos o futuro. ♥️

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